sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

RESTOS - André Bolívar / Ana Terra

Quero fazer em cacos
o doce mal que sai da tua boca
cair e rodopiar no vácuo
da tua memória pouca
quero que tenhas força
para suportar os longos dias
quero correntes ferros quentes
nos porões da abadia
quero a poesia te arrancando o ar
dando puxões pra tropeçar
tapetes grossos caminhos tortos
pra te ver errar
água fervente mágoas frequentes
tantas torrentes pranchas para o mar
magos duendes lamentos dementes em vão
danos irreparáveis dores inenarráveis
disparo de arpão
quero que teu dom acabe
teu tear emperre
tramando apenas panos de chão
o fel desande tua ambrosia
pra te amargar
nunca mais doce teu coração vislumbre
toras intransponíveis na rua que atravesse
ventos e tufões te descabelem
arrancando fio por fio
lascas de unha te restem
apenas para arranhar tua pele
quero te saber uivando por mim
perdido e louco fora de si
e nenhuma benção chegue
nem perto da tua caverna úmida
nem nunca chegará ao inferno
porque este estará para todo o sempre
morando em ti.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Para Ana Terra por Tiago Torres da Silva

"Ana Terra me chegou na voz de Maria Bethânia. Foi assim que travei conhecimento com a poesia de uma mulher que nunca mais esqueci. Ainda por cima, Ana falava do ser humano-homem como se trouxesse recordações de outras encarnações em que talvez pudesse ter sido um cavalheiro. Me surpreendeu o despudor com que ela retratava o homem da cor brasileira. Eu era um menino. Só um menino. Mas corri atrás e fui encontrar Ana na voz de Elis nessa extraordinária canção que é “Essa mulher” e aí ela falava do ser humano-mulher com a mesma intimidade com que falara do masculino na canção que Bethânia gravou. As duas vinham embrulhadas pelas maravilhosas melodias de Joyce, deusa-compositora de quem tive a felicidade de me tornar parceiro faz muito pouco tempo.
Descobri que o poeta tinha tudo dentro dele. O poeta é homem, é mulher, é deus, é santo, é puta, é veado, é velho, é menino. Ana Terra –a poeta – é tudo isso e muito mais. Ela, como seu próprio nome indica, é mãe, Mãe-Terra,, mãe-de-santo, mãe das palavras, mãe de tudo, nossa mãe! Escutar suas canções me ajudou muito a encontrar o lugar do meu ofício e descobrir que a poesia é “feita de sombra e tanta luz/ de tanta lama e tanta cruz/ que acha tudo natural”.
Aprendi também a deixar ir as pessoas que passam na minha vida e seguem outros destinos. Deixá-las ir sem deixar de as amar. Tudo isso eu aprendi escutando, lendo as letras de Ana. Escutando Milton, Nana, Danilo, Emílio, Leila… Escutando a incrível Ângela Rorô em “Amor, meu grande amor”, um tratado sobre as relações a dois. Bastaria Ana Terra ter escrito esta letra para já ter lugar de honra na história da MPB, mas Ana seguiu escrevendo muitas dezenas, centenas de canções, todas elas tocadas por essa capacidade que ela tem como poucos: Ser tudo e ser capaz de pôr esse “tudo” em 3 minutos de canção!"


domingo, 30 de agosto de 2015

Para Ana Terra por Erico Baymma:

"Tenho minha vida inteira conectada à música. Vi festivais na época, no nascimento de uma fase áurea da música brasileira – e também internacional - e todos os filmes com os grandes sucessos do momento, que fizeram história e aumentaram o poder industrial da música, de Beatles a Rita Pavone, tornando-se este grande instrumento de comunicação massiva, além da propriedade intrínseca, como fazer artístico.
Com 12 anos fui introduzido ao universo dos conceitos sonoros quando em 1973 a Elis Regina muda radicalmente seus vieses musicais (“Não foi minha música que mudou, fui eu que mudei” – Elis Regina no Programa Ensaio), Pink Floyd (Dark Side of the Moon), Genesis (Selling England by the Pound). Esta estrutura rompida, da visão infantil, mas devidamente alocada com meus estudos de piano – e a audição frequente de música – chega à dimensão psicológica do que é posto em letras e música e o que se contextualiza em massa sonora.
Conheci Ana Terra através de “Meu Menino”. Fiquei chapado com música e letra, esta mais especificamente, dentro de um painel que é obra prima, o Clube da Esquina 2. Foi minha proximidade definitiva ao autor e às grandezas psicológicas e força expressiva para a massa, nas primeiras palavras: “Se um dia você fôr embora, não pense em mim que não te quero meu, eu te quero teu”. Quem era aquela pessoa que trazia um rompimento com regras culturais tão sutis, como entender e aceitar que o ser amado é uma outra pessoa? Saí “perseguindo” Ana Terra como admirador atento. Para não sair citando todas as canções, resumo que vejo em Ana Terra o magnífico poder da alteridade, da generosidade, de uma amplitude de visão e capacidade de expressão que realmente não é comum, principalmente no universohiper-difícil da canção brasileira, onde as coisas devem “soar e falar” como se fossem somente festa e alegria, como se festa e alegria não tivesse sequer o que sentir. Esta é a grande compositora Ana Terra que mesmo dentro da indústria, com mais de duzentas canções gravadas nunca deixou de batalhar pela qualidade estética, a valorização humana, a preocupação com o respeito à canção e sua plateia, à qual sempre chamou para o melhor, nunca para algo vulgar. Em “Essa Mulher”, parceria com a Joyce, temos o imenso de sua aura, tocando o universo feminino de forma sensível, plenamente interpretado por “minha diva” Elis Regina – à qual faço um paralelo de mulheres de fibra e sensibilidade, como se a canção não pudesse ter sido feita e interpretada por outras...
Ana Terra tornou-se amiga virtual. Entrevistei-a e confirmei tantos outros lados. Ela é um furacão de sensibilidade e expressão e nada passa sem sua doce e consistente visão e tato. Em suas palavras nunca nega o suor, a dose de força cuidada para o que fala. E não bastando, também é uma das grandes lutadoras por causas sociais, mais ainda pelos direitos do autor – coisa que é desdenhada, como se o artista não fosse um trabalhador, e dos grandes, pois aloca-se direto no senso humano de forma ética, merecendo ser devidamente respeitada em todos os sentidos.
Ana Terra é natureza, nutre-se e alimenta o quê e a quem está perto.
Minha gratidão a ti, Ana Terra, por este espaço imenso que você, em sua diversidade ocupa em minha pessoa. Você dá dignidade ao material que mais prezo na vida e está sempre reformulando meus afetos."

sábado, 29 de agosto de 2015

Para Ana Terra por Léo Jaime

"Ela me deu abrigo num momento muito difícil da vida. Minha gratidão eterna. Poesia no trabalho e na vida.
Bjs"

Para Ana Terra por Felipe Radicetti

"Ana Terra é mar revolto, vaga e maré funda, é poesia-vagão que me traz de tão longe até mim;
Tanto espanto é por ter sido colhido há tanto por tantos versos, pelos artigos femininos perfeitos perfeitas, por tecer uma trilha textual que me impeliu a avançar nas noites, avançar por essas mulheres, pelos ensaios de amor, pelos guardados que resisti em despegar.
É dessa forma tão simples, acho, que Ana Terra vem nos fazendo mais felizes, nesses 40 anos tão transformados, tão determinantes, determinados.
Ana, ainda bem. Esse meu agradecimento é por ser nossa companheira, por todas essas músicas, por todas aquelas vozes, pelas palavras precisas, que me calam precisamente quando preciso."



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Ana Terra - 40 anos de MPB - Últimos dias para apoiar!

Esse projeto receberá contribuições como venda antecipada até dia 2 de setembro.


Para Ana Terra por Ana de Hollanda

"Conheci a compositora Ana Terra muitos anos antes de conhecê-la pessoalmente. Uma canção, em especial, me atingiu como atingiu um sem número de mulheres conscientes de sua condição, de suas paixões, de suas fantasias, e de seus sofrimentos. A letra de “Essa Mulher” captou, poeticamente, as várias facetas femininas como nenhuma outra que eu me lembre. Trabalhei essa canção nas minhas aulas de interpretação e cantei dezenas de vezes em shows. Poderia comentar várias outras obras primas. Mas basta essa para sintetizar a mulher intensa, polêmica, politizada e criativa que é a minha amiga Ana Terra."

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Para Ana Terra por André Bolívar

"Eu já conhecia a letrista Ana Terra,o que eu não conhecia era a contista, a pessoa maravilhosa, o ser humano enorme que irradia luz por onde pisa, que acende a chama nas palavras que escreve.

Hoje,tenho o prazer de conhecer a Ana Terra que entra em uma personagem e veste a sua roupa leve ou então a sua armadura pesada caminhando no deserto; o prazer de ler seus contos e se não soubesse que foi ELA quem escreveu, desacreditaria que uma pessoa que escreveu Essa Mulher, desmonte a minha cabeça criando e vivendo um personagem masculino, denso, sofrido, duro, cheio de pensamentos retos e sem rodeios, porém seguros.

Leio seus poemas, suas letras, seus contos, suas crônicas, como quem morde uma maçã olhando pela janela.
Sempre muda o gosto da fruta, pois muda sempre a paisagem, mudando o que se passa no nosso interior, conforme avançamos na leitura, ou entramos em alguma das centenas de suas letras musicadas.

Ana Terra, maior honra poder te chamar de amiga!
Minha amiga, amiga das Artes, amiga do Brasil, amiga do Mundo.
um ser humano " poeta em tempo integral".

agosto/2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Para Ana Terra por Marisa Déa


"Falar sobre Ana Terra é um granda desafio.
Há cerca de dois anos, por um feliz acaso, fui apresentada a essa grande letrista, que conhecia há 40 anos, através de suas canções, que se tornaram referência na Música Popular Brasileira.
Isso deu-me a oportunidade de conhecer, além da poeta, a autora de composições em prosa de beleza ímpar, nas quais Ana Terra despe-se para revelar ao leitor seus mais íntimos anseios e emoções.
Valendo-se de uma linguagem coloquial, a autora refere seus sentimentos e sonhos, acontecimentos de sua vida pessoal; expressa suas convicções políticas e sociais, sua preocupação com a arte e a situação do artista em nossa realidade.
Os textos de FRAGMENTOS DE MIM e MEU BEM, que estão presentes no DVD a ser lançado, são um belo exemplo dessa sua forma de expressão.
Dessa conversa ao pé do ouvido, como a da mulher traída que, ainda assim, prepara com o maior desvelo o feijão para seu homem e, num repente, revela o sentimento que tem qualquer mulher em semelhante situação ao exclamar - para nos salvar - "amanhã boto vidro moído" ( POESIAS "Arroz com Feijão").
De uma estrutura linguística, nitidamente oral, Ana Terra salta para estruturas requintadas, onde a linguagem ganha enorme riqueza conotativa, carrega-se de imagens e metáforas, adquire movimento e cor.
Um exemplo disso está em FRAGMENTOS DE MIM I, onde a autora nos revela a fonte de sua arte: "Por isso vivi sempre entre mergulhos em águas profundas para salvar peixes e saltos mortais para alcançar palavras soltas". Ou ainda em FRAGMENTOS DE MIM II: "( e eu lia) ...emoções que são mais fáceis de ler porque estão escritas no corpo, difícil embaralhar palavras no peito, nos olhos, na aura, então, impossível" ...
Valendo-se de uma linguagem que traduz emoção e necessidade premente, cria um texto que deveria constar de compêndios de Teoria da Literatura. Em SER ARTISTA fala da necessidade absoluta que tem o artista de criar, de arrancar de dentro de si a obra, como um filho tem que sair do ventre da mãe.
Assim é Ana Terra, criadora, mãe, avó, mulher, que coloca a paixão em cada ato de vida.
Assim é Ana Terra, letrista, escritora, amiga, irmã."


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Para Ana Terra por Sergio Ricardo

"Falar do talento de Ana Terra é chover no molhado. Como todos sabemos sua poesia que impregna as canções de beleza e sentimento são na sua totalidade um tesouro da MPB. Prefiro falar da pessoa e a missão que cumpre com dignidade e paixão. É uma das poucas que teimam e se empenham entregando-se de coração na árdua tarefa de tirar nossa música popular do abismo cavado pela mídia, pelo descaso dos aproveitadores e oportunistas que fazem de nosso destino cultural uma máscara cravejada de falsos brilhantes no rosto de certos valores, que proposital ou ingenuamente aceitam atuar no espetáculo de circo armado nas periferias do descaso. Incansável, ela encara todas as propostas que lhe são apresentadas no sentido de combater esta moléstia, não com sedativos usuais de apoio simplesmente, mas com a garra de uma guerreira autêntica, pondo-se à disposição de corpo e alma, quando não é ela mesma quem articula uma ação neste sentido, surpreendendo a todos pela competência e criatividade, tentando vencer os obstáculos com incansável tenacidade. Tenho visto de perto suas articulações e me espantado com sua calorosa persistência, como se a cada obstáculo, dos infinitos que se nos apresentam, o seu enfrentamento como se fosse pela primeira vez. Sua importância na luta de nossa classe é indispensável e repleta de informações e estratégias. De minha parte, sempre queimei meus incensos por ela. Um dia chegaremos lá. Com ela."
Beijo
     Agosto /2015

domingo, 9 de agosto de 2015

MEU PAI

Que o dia dos pais é uma data comercial sem nenhum significado simbólico, isso foi uma das coisas que aprendi com meu pai. Meu pai me ensinou muitas coisas mas a mais presente é que ninguém treina sofrimento para o dia que tiver que sofrer já saber como é. Ninguém tem que acordar cedo porque quem sabe, um dia terá que fazê-lo. Ou não comer filé mingnon porque não poderá todos os dias. Ou não gastar todo seu dinheiro na viagem dos sonhos porque pode precisar para uma emergência. Meu pai nunca nos treinou para os acidentes da vida, as dores, as perdas, as tristezas, a solidão. Nunca fez nenhum comentário sobre meus casamentos e separações me dando abrigo sempre que precisei, e um bom uísque nas inúmeras festas em sua casa mas também nos dias comuns. E me apresentando orgulhoso aos amigos: ela é compositora! 

Lembro que a primeira coisa que construiu em sua casa em Niterói foi a piscina:-sabe filha, se não fizer primeiro o dinheiro vai acabar e não teremos piscina. Que ele tão pouco usava mas sempre manteve com água cristalina. Nessas águas até hoje seus 6 filhos, 18 netos e 18 bisnetos deixam felicidade. Hoje ele tem pouca memória recente, então nossas conversas são sobre as férias da infância na casa de meu bisavô em Paquetá, os passeios de barco e pesca submarina em Angra dos Reis quando lá moramos porque como oficial de Marinha era instrutor no Colégio Naval, suas lembranças dos pais, avós e irmãos. 

Um dia postei essa foto do meu neto brincando com ele, e meu tio Eurico lembrou-se dessa obra de Miquelangelo, a Criação de Adão na Capela Sistina. Achei bonita essa comparação. Meu pai é ateu mas nos treinou para a criação, prazer, respeito, dignidade. Que bom que não nos treinou para o sofrimento, porque quando ele vem, a gente sofre e pronto. Mas passa.

domingo, 21 de junho de 2015

Quem ama sabe

(Sueli Costa/Ana Terra)

Quem ama sabe
que os deuses dos mares
sem pedir licença
invadem os lares
com música lenta
num mantra suave
vão levando ao transe
vão levando aos pares 

Quem ama sabe
que não tem mais volta
que já virou peixe, areia e anzol
que não tem mais nome, nem sede nem fome
que já virou rede, sereia e farol

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Cenas derridianas


"Quando você pega no corpo de alguém você quer o futuro. Há um incêndio nos arquivos. Os sentidos e o sentido se queimam. É o contrário da melancolia. Sem messianismo. Na abertura de uma expectativa promissora."

Luiz Fernando Medeiros de Carvalho



sexta-feira, 24 de abril de 2015

Bebel

Um dia cheguei em casa e ela estava lá, deitada na minha cama dormindo. Apenas levantou a cabeça, me olhou e perguntou -oi, tudo bem? Veio de algum mato perto da minha casa, subiu por muros e telhados até encontrar uma fresta no meu por onde entrou e entrava sempre que queria. Era uma gata de rua, e a chamei de Bebel por conta da personagem de Camila Pitanga numa novela desse tempo. Tínhamos nossos entendimentos. 

Eu sabia quando ela pedia ração, eu sabia quando ela pedia leite, eu sabia quando ela queria água que só bebia na minha mão em concha na torneira da pia. E ela sabia quando eu estava triste e então olhava nos meus com aqueles olhos verdes e doces - chora não... e dormia em cima de mim como para me proteger de toda tristeza. 

Quando ela chegou na minha casa e na minha vida era dia de São Francisco de Assis. Hoje quando cheguei em casa sua alma não estava mais no corpo. E lembrei seus olhos - chora não...  Sim Bebel, vou tentar. Agora você está comendo pela mão de um santo. 


segunda-feira, 20 de abril de 2015

Fragmentos de Maiakóvski

1
Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso

2
Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te com o relâmpago
de mais um telegrama

3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano

4
Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo

5
Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.

(tradução:  Augusto de Campos)


sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Rainha

Nomeei-te rainha. 
Há maiores do que tu, maiores. 
Há mais puras do que tu, mais puras. 
Há mais belas do que tu, há mais belas. 

Mas tu és a rainha. 

Quando andas pelas ruas 
ninguém te reconhece. 
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém olha 
a passadeira de ouro vermelho 
que pisas quando passas, 
a passadeira que não existe. 

E quando surges 
todos os rios se ouvem 
no meu corpo, 
sinos fazem estremecer o céu, 
enche-se o mundo com um hino. 

Só tu e eu, 
só tu e eu, meu amor, 
o ouvimos. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda" 


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Elizabeth Barrett Browning

Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, o modo de falar
honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
com a sua”. Por que pode mudar
isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
de tuas mãos enxuga, pois se em mim
secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
me hás de querer por toda a eternidade.

(Elizabeth Barrett Browning – trad. Manuel Bandeira)

Se me esqueceres

Se  me esqueceres
Quero que saibas 
uma coisa. 

Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 

Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 

Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 

Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 

Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"
   


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Não Estejas Longe de Mim um Dia que Seja

Não estejas longe de mim um dia que seja, porque, 
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia, 
e estarei à tua espera como nas estações 
quando em algum sitio os comboios adormeceram. 

Não te afastes uma hora porque então 
nessa hora se juntam as gotas da insónia 
e talvez o fumo que anda à procura de casa 
venha matar ainda meu coração perdido. 

Ai que não se quebre a tua silhueta na areia, 
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem: 
não te vás por um minuto, ó bem-amada, 

porque nesse minuto terás ido tão longe 
que atravessarei a terra inteira perguntando 
se voltarás ou me deixarás morrer. 

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"


sexta-feira, 27 de março de 2015

Narciso

"O narcisista sofre por não se amar: ele só ama a sua representação. Amar-se com amor verdadeiro implica uma indiferença a todas as suas próprias cópias, tais como podem aparecer para os outros e, pelo viéis dos outros, a mim mesmo, se presto muita atenção a eles. Este é o miserável segredo de Narciso: uma atenção exagerada ao outro. Esta, aliás é a razão por que ele é incapaz de amar alguém, nem o outro nem ele mesmo, já que o amor é um assunto importante demais para que se delegue a outro a responsabilidade de negociá-lo."

"O real e seu duplo" - Clément Rosset

A dor invisível

Eu tenho fibromialgia, ou melhor, ela me tem. Não sei quando abri a porta mas talvez ela tenha entrado sem ser convidada. Aproveitou um momento de dor, lá atrás, quando perdi minhas irmãs porque morreram. Lá atrás, quando o homem com quem tive dois filhos os roubou de mim. Lá atrás quando sofri um sério  desastre de automóvel. Não sei. Sempre tive essa dor no corpo e na alma, esse cansaço sem causa, essa lentidão. E ninguém sabia o que era. Então durante décadas me receitaram antiinflamatórios, analgésicos, cortisona e antidepressivos até encontrar um velho médico reumatologista na Ordem Terceira de São Francisco da Penitência que após me examinar, me libertou: "você tem fibromialgia, minha filha." Sim, me libertou porque a pior coisa que se pode ouvir quando sentimos dor é que é emocional. Tudo é emocional e corporal porque somos uma unidade. Ainda bem que optei pela homeopatia unicista que muitas vezes me aliviou para que meu vale de lágrimas se transformasse num rio de Oxum, onde a fertilidade me banhou para que tivesse mais dois filhos, oito netos e minha obra poética e política. E o amor, que rimo com prazer, alegria, cumplicidade. E quase sempre é maior que minha dor.
                                              Ana Terra/2015 

Nem nada que direito fosse chegava a mim

Quando eu machucava os meus pés nas pedras
quando o mundo todo me mandava a merda
quando nem uma flor, nem um carinho
nada que direito fosse chegava a mim
minha mão com dor o corpo inteiro 
mais fremia o espinho, 
já que a dor é minha e por dever a sinto
já que o sofrimento não tem fim
e assim mesmo na visão turva de um quase cego
via lampejos de fantasmas e almas penadas surdas
que tocavam minha língua em desespero por palavras
meus braços se lançavam aos céus como afogado
e deles fugiam demônios
que ainda hoje eu quase pego
e com essas mãos imundas de um desgraçado 
afagava sem engano a invisível face 
eu me acostumei a beijar a morte
andar sem rastro, estrelas, gasto
eu ando gasto
eu sou um bosta que nasceu sem sorte 
de quatro pra lua, catando o pasto.

Ana Terra/André Bolívar - 2015

segunda-feira, 16 de março de 2015

ANA TERRA: Dilma, por favor, liga o foda-se!

ANA TERRA: Dilma, por favor, liga o foda-se!

Dilma, por favor, liga o foda-se!

Os descontentes com o governo são a direita ideológica representada pelos papagaios da Rede Globo e da Revista Veja, tipo classe média, e não o grande capital econômico e financeiro, intocado, portanto satisfeito. Os descontentes também estão à esquerda porque não foram feitas as reformas agrária e política nem taxaram grandes fortunas. Essa é a verdadeira base de sustentação do PT e nesse momento Dilma deve atender a essa base organizada em movimentos sociais que vai para rua sim, defender sua permanência no governo. Mexa nos grandes interesses econômicos, no latifúndio, nas concessões públicas, pára de financiar os grandes meios de comunicação.

Vamos cair na real e aceitar que o Brasil é meio a meio direita e esquerda. Com nuances evidentes em cada lado. Como são muitas, não cabe aqui analisar mas definir a grosso modo que a grande diferença está em quem prefere uma sociedade mais igualitária e quem deseja a permanência da sociedade de classes. O governo petista só foi finalmente eleito quando acendeu uma vela a Deus e outra ao diabo, na famosa Carta aos Banqueiros. Lula e nem Dilma foram eleitos, por esses votos a mais, para fazer uma revolução socialista. E muito menos mexer no grande capital que a classe média defende com tanto gosto como se fosse seu. 

Todos sabem que os eleitores históricos  do PT são os movimentos sociais de base, intelectuais e artistas de esquerda e uma parcela da classe média esclarecida. São os votos ideológicos. Os que fizeram a diferença foram os descontentes com o governo anterior e que resolveram apostar no Lulinha Paz e Amor vendido pelos marqueteiros das campanhas. São os fisiológicos. Que vão para qualquer lado com tanto que não mexam nos seus interesses individualistas. Agora, como numa ladainha, reclamam da inflação como se fosse um problema brasileiro desconhecendo a crise mundial do sistema capitalista. Reclamam dos impostos altos  fingindo não saber que muito mais de 100  milhões de brasileiros são funcionários públicos, pensionista ou concurseiros, isto é, recebem ou querem receber seus salários da receita dos impostos. Reclamam porque não aceitam que um operário tenha sido o melhor presidente do Brasil e agora uma mulher. 

Que reclamem então com razão porque o governo atendeu os interesses dos que realmente precisam ser plenamente  atendidos e nunca foram na História do Brasil: a classe trabalhadora do campo e da cidade. Vá em frente, Dilma, tome decisões radicais, não vá a televisão explicar nada. Radicalize e liga o foda-se.  

quarta-feira, 11 de março de 2015

Cineamor

Adormecidos, um tapete mágico inexistente nos leva ao espaço frio onde ensino constelações e você me conduz a Vênus. Seus braços, tronco e pernas me amparam e aquecem. Perco o medo de altura, de escuro e de não ser feliz. Cenas invadem meus olhos guiados por suas palavras, camadas de mundo e sentimentos vão se descortinando como se você fosse um mágico que não tem truques mas, naturalmente, amplificasse minha visão. Cada personagem adormecido na sombra do inconsciente e projetado na tela da imensidão não segue em linha reta para a mente lúcida. Faz volteios pelas curvas e fendas de meu corpo, que então, iluminado, se encaixa outra vez no seu para nos dar prazer. E sempre desejar mais uma temporada. 


domingo, 8 de março de 2015

Pergunta aos Senhores do Mundo

O sociólogo Pierre Bourdieu, em conferência ministrada num evento (1999) ao qual se faziam presentes representantes das maiores corporações de mídia no mundo (inclusive Rede Globo), proferiu estas palavras:

Não me darei ao ridículo de descrever a situação do mundo da mídia para pessoas que o conhecem melhor que eu; pessoas que estão entre as mais poderosas do mundo, de um poder que não é apenas do dinheiro, mas do que o dinheiro pode ter sobre os espíritos. Esse poder simbólico, que na maioria das sociedades era diferente do poder político ou econômico, hoje está concentrado nas mãos das mesmas pessoas, que detêm o controle dos grandes grupos de comunicação, ou seja, do conjunto dos instrumentos de produção e de difusão dos bens culturais. A essas pessoas muito poderosas gostaria de submeter uma pergunta do gênero da que Sócrates submeteu aos poderosos de seu tempo (nesse diálogo, ele perguntou com muita paciência e insistência a um general célebre por sua coragem o que era coragem; em outro, perguntou a um homem conhecido por sua piedade o que era piedade; e assim por diante, fazendo parecer, a cada vez, que eles realmente não sabiam o que eram).
Não estando à altura de proceder dessa maneira, eu gostaria de fazer algumas perguntas que sem dúvida essas pessoas não se fazem (principalmente porque não têm tempo) e que conduzem todas a uma só: senhores do mundo, vocês têm domínio de seu domínio? Ou, mais simplesmente, sabem realmente o que fazem, o que estão fazendo, todas as conseqüências do que estão fazendo? Perguntas muito embaraçosas, às quais Platão respondeu com a famosa fórmula, que sem dúvida também se aplica a esse caso: "Ninguém é mau voluntariamente".
Dizem-nos que a convergência tecnológica e econômica do audiovisual, das telecomunicações e da informática, e a confusão de redes que dela resulta tornam inoperantes e inúteis as proteções jurídicas do audiovisual (por exemplo, as regras relativas às cotas de difusão de obras européias); dizem-nos que a profusão tecnológica, somada à multiplicação de canais temáticos digitalizados, responderá à demanda potencial dos consumidores mais diversos, que todas as demandas receberão ofertas adequadas, em suma, que todos os gostos serão satisfeitos.
Dizem-nos que a concorrência, sobretudo quando associada ao progresso tecnológico, é sinônimo de "criação" (eu poderia ilustrar cada uma de minhas asserções com dezenas de referências e citações, definitivamente muito redundantes). Mas também nos dizem que a concorrência dos novos agentes, muito mais poderosos, vindos das telecomunicações e da informática, é tamanha que o audiovisual tem cada vez mais dificuldade para resistir; que os valores dos direitos, principalmente em relação ao esporte, são cada vez mais elevados; que tudo o que produzem e divulgam os novos grupos de comunicação integrados tecnológica e economicamente, isto é, tanto mensagens televisivas quanto livros, filmes ou jogos televisivos, em suma, tudo o que se agrupa sob o nome de "catch all" de informação, deve ser tratado como uma mercadoria igual às outras, a que se devem aplicar as mesmas regras que a qualquer outro produto; e que esse produto industrial padronizado deve assim obedecer à lei comum, a lei do lucro, imune a qualquer exceção cultural sancionada pelas limitações regulamentares (como o preço único do livro ou as cotas de difusão). Dizem-nos enfim que a lei do lucro, isto é, a lei do mercado, é eminentemente democrática, já que sanciona o triunfo do produto que é plebiscitado pelo maior número de pessoas. A cada uma dessas "idéias" poderíamos opor, não idéias, sob o risco de parecermos um ideólogo perdido na névoa, mas fatos: à idéia de diferenciação e de diversificação extraordinária da oferta, poderíamos observar a extraordinária uniformização dos programas de televisão, o fato de que as inúmeras redes de comunicação tendem cada vez mais a difundir o mesmo tipo de produtos, jogos, seriados, música comercial, romances sentimentais do tipo telenovelas, séries policiais que nada ganham, ao contrário, em serem francesas ou alemãs, todos eles produtos originários da busca de lucros máximos por custos mínimos ou, em campo diferente, a crescente homogeneização dos jornais e dos semanários.
Em outro exemplo, às "idéias" de concorrência e diversificação, poderíamos opor o fato da extraordinária concentração dos grupos de comunicação, concentração que, como demonstra a mais recente fusão entre a Viacom e a CBS, ou seja, de um grupo voltado para a produção de conteúdo com um grupo voltado para a difusão, conduz a uma integração vertical tal que a difusão comanda a produção. Mas o essencial é que as preocupações comerciais, e em particular a busca do lucro máximo em curto prazo, se impõem cada vez mais, e cada vez mais amplamente, ao conjunto das produções culturais. Assim, no domínio da edição de livros, que estudei de perto, as estratégias dos editores, e em especial dos diretores de grandes grupos, se orientam para o sucesso comercial.É aí que seria necessário começar a fazer perguntas.
Falei há pouco de produções culturais. Ainda é possível hoje, e será ainda possível por muito tempo, falar de produções culturais e de cultura? Os que fazem o novo mundo da comunicação e são feitos por ele gostam de citar o problema da velocidade, do fluxo de informações e de transações que se torna cada vez mais rápido e, sem dúvida, eles têm parcialmente razão, quando pensam na circulação da informação e na rotatividade dos produtos. Dito isso, a lógica da velocidade e do lucro que se unem na busca do lucro máximo a curto prazo (com as pesquisas de audiência para a televisão, o sucesso de vendas para o livro e, evidentemente, o jornal, o número de anos para o filme) parecem-me incompatíveis com a idéia de cultura.
Como disse Gombrich, quando as "condições ecológicas da arte" são destruídas, a arte e a cultura não demoram a morrer. Como prova, eu poderia me contentar em citar o que ocorreu ao cinema italiano, que foi um dos melhores do mundo e que só sobrevive graças a um punhado de cineastas, ou do cinema alemão, ou do cinema da Europa do Leste. Ou a crise que sofre em toda parte o cinema de autor, principalmente por falta de circuitos de difusão. Sem falar na censura que os distribuidores de filmes podem impor a certos filmes. Ou ainda o destino de uma rede de rádio cultural, hoje entregue à liquidação em nome da modernidade, das pesquisas de audiência e das conivências da mídia.
Mas só podemos compreender realmente o que significa a redução da cultura ao estado de produto comercial se nos lembrarmos como foram constituídos os universos da produção e das obras que consideramos universais no campo das artes plásticas, da literatura ou do cinema. Todas as obras expostas nos museus, todos os trabalhos de literatura que se tornaram clássicos, todos os filmes conservados nas cinematecas são produtos de universos sociais que se constituíram aos poucos, superando as leis do mundo comum e particularmente a lógica do lucro.
Para me fazer entender, um exemplo: o pintor do Quatrocento- sabemos pela leitura dos contratos- teve de lutar contra os clientes para que sua obra deixasse de ser tratada como um simples produto, avaliada pela superfície pintada e pelo preço das tintas empregadas; teve de lutar para obter o direito à assinatura, ou seja, o direito a ser tratado como autor, e também pelo que chamamos, desde uma data bastante recente, de direitos autorais (Beethoven ainda lutou por esse direito); teve de lutar pela raridade, a originalidade, a qualidade, teve de lutar, com a colaboração de críticos, de biógrafos, de professores de história da arte etc., para se impor como artista, como "criador".
Ora, é tudo isso que se encontra ameaçado hoje com a redução da obra a um produto e a uma mercadoria. As lutas atuais dos cineastas pelo "final cut" e contra a pretensão do produtor de deter o direito final sobre a obra são o equivalente exato às lutas do pintor do Quatrocento. Foram precisos cerca de cinco séculos para que os pintores conquistassem o direito de escolher as tintas empregadas, a maneira de utilizá-las e, finalmente, o direito de escolher o tema, sobretudo ao fazê-lo desaparecer, com a arte abstrata, para grande escândalo do cliente burguês.
Da mesma forma, para ter um cinema de autor foi preciso todo um universo social, pequenas salas e cinematecas que projetam filmes clássicos e são frequentadas por estudantes, cineclubes animados por professores de filosofia, cinéfilos formados pela frequência a essas salas, críticos abalizados que escrevem nos "Cahiers du Cinéma", cineastas que aprenderam a profissão assistindo a filmes sobre os quais se informavam nesses "Cahiers", em suma, todo um ambiente social no qual certo cinema tem valor, é reconhecido.
São esses universos sociais que hoje estão ameaçados pela irrupção do cinema comercial e a dominação dos grandes distribuidores e, com eles, os produtores, salvo quando eles mesmos se encontram num processo de involução; eles são palco de um retrocesso, da obra para o produto, do autor para o engenheiro ou o técnico que utiliza recursos técnicos, os efeitos especiais, e de estrelas, todos extremamente dispendiosos, para manipular ou satisfazer as pulsões básicas do espectador (com frequência previstas pelas pesquisas de outros técnicos, os especialistas em marketing).
Reintroduzir o reino do "comercial" em universos que foram construídos, aos poucos, contra ele, é pôr em risco as obras mais elevadas da humanidade, a arte, a literatura e mesmo a ciência. Não acredito que alguém o possa realmente desejar. Foi por isso que citei no início a célebre fórmula platônica: "Ninguém é mau voluntariamente". Se é verdade que as forças da tecnologia aliadas às forças da economia, a lei do lucro e da concorrência, ameaçam a cultura, que podemos fazer para rechaçar esse movimento? Que podemos fazer para aumentar as probabilidades dos que só podem existir num tempo longo, os que, como outrora os pintores impressionistas, trabalham para um mercado póstumo?
Eu gostaria de convencer, mas sem dúvida precisaria de muito tempo, de que buscar o lucro máximo imediato não é necessariamente, quando se trata de livros, de filmes ou de pintores, obedecer à lógica do interesse verificado: identificar a busca do lucro máximo com a busca do público máximo é arriscar-se a perder o público atual sem conquistar outro, a perder o público relativamente restrito das pessoas que lêem muito, frequentam muito os museus, teatros e cinemas, ganhando em troca novos leitores ou espectadores ocasionais.Se sabemos que, pelo menos em todos os países desenvolvidos, o período de escolarização não pára de crescer, assim como o nível de instrução médio, como também crescem todas as práticas estreitamente relacionadas ao nível de instrução (frequência a museus ou teatros etc.), podemos pensar que uma política de investimento econômico nos produtores e produtos ditos "de qualidade" pode, pelo menos em médio prazo, ser rentável, mesmo economicamente (de qualquer forma, sob a condição de contar com os serviços de um sistema educacional eficaz).
Assim, a opção não é entre a "globalização", isto é, a submissão às leis do comércio, portanto ao reino do "comercial", que é sempre o oposto do que se entende de modo mais ou menos universal por cultura, e a defesa das culturas nacionais ou essa ou aquela forma de nacionalismo ou localismo cultural. Os produtos kitsch da "globalização" comercial, a dos jeans, da Coca-Cola ou do seriado, ou a do filme comercial de grande orçamento e efeitos especiais, ou ainda a da "world fiction", cujos autores podem ser italianos ou ingleses, se opõem em todos os aspectos aos produtos da internacional literária, artística e cinematográfica, cujo centro está em toda parte e em lugar nenhum, embora tenha sido por muito tempo e talvez ainda seja Paris, lugar de uma tradição nacional de internacionalismo artístico, ao mesmo tempo que Londres e Nova York.
Assim como Joyce, Faulkner, Kafka, Beckett ou Gombrowicz, puros produtos da Irlanda, dos Estados Unidos, da Tcheco-Eslováquia ou da Polônia, foram feitos em Paris, também numerosos cineastas contemporâneos que não existiriam como existem sem essa internacional literária, artística e cinematográfica cuja sede social é Paris. São necessários vários séculos para produzir produtores que produzem para mercados póstumos. É colocar mal os problemas simplesmente opondo, como se faz com frequência, uma "globalização" e um mundialismo que estariam do lado da potência econômica e comercial, e também do progresso e da modernidade, a um nacionalismo ligado a formas arcaicas de manutenção da soberania. Trata-se na verdade da luta entre uma potência comercial que pretende estender ao universo os interesses particulares do comércio e dos que o dominam e uma resistência cultural, fundada na defesa das obras universais produzidas pela internacional desnacionalizada dos criadores.
Vou encerrar com uma anedota histórica, que também se relaciona à velocidade, e que mostra quais deveriam ser, na minha opinião, as relações que uma arte livre das pressões do comércio poderia ter com os poderes temporais. Conta-se que Michelangelo aplicava tão pouco a forma protocolar em suas relações com o papa Júlio 2º, seu cliente, que este era obrigado a sentar-se rapidamente para que Michelangelo não se sentasse antes. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que tentei perpetuar aqui, muito modestamente, mas muito fielmente, a tradição inaugurada por Michelangelo, de distância em relação aos poderes e, muito especialmente, desses novos poderes que são as potências conjugadas do dinheiro e da mídia.

* Pierre Bourdieu é um sociólogo francês Publicado no jornal Libération, em 17 de outubro de 1999.
Pierre Bourdieu é sociólogo, professor do Collège de France, autor dos livros: "Sobre a Televisão", "Contrafogos" (Jorge Zahar Editor) e "A Dominação Masculina" (Bertrand Brasil), entre outros. 


segunda-feira, 2 de março de 2015

DE TUDO

A complexidade dos seres é um mistério para a vida toda. E quanto mais vivemos nos tornamos mais. Sim, quero a simplicidade de apenas viver cada dia com seus pesos e levezas, purificar minha aura, meu corpo, meus pensamentos. Vivo num certo recolhimento e, como disse Cassia Eller, "tenho medo de gente". Entendo o que ela quis dizer, medo de quem não faz parte da minha tribo, que eu tenha que fazer "social", sorrir sem vontade, falar e ouvir abobrinhas, me explicar. Não tenho mais tempo para isso, quero apenas quem me acolhe como sou porque tem a mesma bagagem de complexidade, não em igualdade mas em intensidade. Então podemos trocar figurinhas porque sempre será uma boa troca. E porque trocamos idéias claras, beijos solares e abraços noturnos, tocamos corpo e alma.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

ÁGUA

Caio dos céus
até virar as marés
eu vou virando emoções.
Vivo a fluir,
não tenho  forma nem cor
eu vou pra onde eu vim, meu amor.
Se me detém
eu sempre posso fugir
jorrando aos borbotões.
Sei dos confins
de tanta terra e raiz
que eu molhei e amei por aí,
do limo ao ipê.
Sou eu que uno os secos,
umedeço os seres,
desço aos lodaçais.
Misturo corpos, almas,
ergo os medos
ao prazer dos imortais.
No êxtase dos místicos,
nos líquidos dos sexos,
fluxo e refluxo, suor.
Todo parto é solidão,
lágrima d’Oxum,
gota a gota,
rio a rio,
é tão doce esse sal.
Ai de mim
carrego tanta dor
a dor dos ancestrais.
Só no fim meus filhos terão paz
assim tão lindos no ventre da mãe.
Odò Iyá
brincar de renascer,
flutuam no ar outra vez,
até se tornarem essa luz...
clarão de outra mãe que faz chover.


Do fogo nascer.
https://www.youtube.com/watch?v=p9UJjW4IpRA